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Poder-se-ia dizer que, em cerca de 50 anos, Portugal terá sofrido uma transformação socio-geográfica radical, transitando de um ruralismo relativamente dominante para uma vasta suburbanidade. Este é um processo com contornos de aparente inelutabilidade*, através do qual a Grande Lisboa (o 'crânio' protuberante e macrocéfalo do país) se terá transformado radicalmente.

Primeiro, há um fluxo contínuo das terras rurais para as cinturas envolventes à cidade, impulsionado por forças económicas transformadoras, e necessidades e aspirações prementes. Bem como uma ‘primeira’ vaga de imigração legal, oriunda das colónias, chamada para colmatar a emigração económica e de escape ao conflito ultramarino, e a partida dos contingentes militares para a “Guerra de África” que despontava de Angola à Guiné-Bissau.

Depois, o 'retorno' súbito, após 74 (famílias que crescem inclusas), de muitos daqueles que tinham um dia partido para se estabelecerem nas colónias, e de muitos nas colónias nascidos e crescidos e, como tal, 'tornando' mas não retornando.

Depois ainda, existe uma vaga, suave mas contínua, de regresso 'descentrado', daqueles que, emigrados, voltam para se estabelecerem à volta de Lisboa (tendo partido das regiões mais rurais).

Finalmente, vários fluxos de imigração começam a chegar, a partir do final dos anos 70, das nações que antes delineavam o império português, e mais recentemente do Brasil, do leste europeu e da Ásia.

É esta a mescla social rica dos subúrbios de Lisboa; à qual poderíamos adicionar um gotejamento contínuo de espécimes urbanos, empurrados para fora pelo inflacionar dos preços da habitação, pela especulação imobiliária e pela terciarização da cidade intramuros (e, também, por uma certa procura da ‘cidade jardim’, do subúrbio murado ou de uma ‘ruralidade’ refreada e superficial).

Não é que esta transformação possa ser concebida como uma simples passagem da ruralidade para a suburbanidade: afinal, muitos daqueles que agora tomam a posse de uma célula na matriz suburbana não terão necessariamente deixado para trás um contexto rural e a população portuguesa terá entretanto crescido.

É acima de tudo que fluxos migratórios de dentro e fora de Portugal, assim como para fora, bem como os crescimentos ou decrescimentos a estes ligados, terão levado a uma relativa desertificação do país rural e ao surgimento algo repentino, e ao aumento rápido, de um anel de acreção à volta — e, em certas zonas, por dentro — da Lisboa concelhia.

A complicar isto, há a relativa indiferença da expansão suburbana para com as demarcações administrativas, e o deslocar de placas sociais causado por propensões internalizantes e externalizantes: partes de Lisboa, outrora as regiões (rurais ou semi-rurais) adjacentes a uma cidade mais pequena, são agora dormitórios concelhios e 'guetos sociais internos’, secções antes semi-vagas enchem-se com condomínios estereotipadamente suburbanos, para uma certa classe média e os mercados de luxo, e uma versão diluída da cidade jardim monopoliza partes da cintura externa. (Por outro lado, zonas urbanas envelhecidas e algo despovoadas, reocupam-se e renovam-se pela penetração de alguma desta imigração até ao centro.)  

Para mais, CRILs e CRELs, vias rápidas internas, parques de estacionamento, túneis e nódulos comerciais garantem que a cidade se mantenha eternamente partida, e uma expansão suburbana que corre para dentro tanto quanto se expande para fora se torne intrémula e duradoura. Inadvertidamente ou não, compartimentam-se, com esta grelha, partes da cidade ao longo de linhas socio-económicas marcadas e guetizam-se populações. Se a arquitectura e o planeamento (ou a ausência de uma e do outro) produzem clivagens, é o modo suburbano centrado no atravessamento individual célere da cidade e dos seus satélites, e na 'pendularidade' urbe-subúrbio (o ciclo diário de enchimento e esvaziamento através do automóvel) que causa o escorregamento e desfasamento suburbano, ora do aceleramento, ora do abrandamento, em relação a uma temporalidade mais compassada e intermédia que inferiríamos urbana. A rede de 'condutas' e 'nódulos' que compartimentam ao serviço de uma cavalgada para a cidade e de uma concentração, do reverso de um escoamento para fora, de uma (híper) fluidez que frequentemente se entope, de uma circulação supra ou infra-citadina, criam esta temporalidade faseada, que oscila entre o 'mais' do trânsito (demasiado) rápido e, como tal, supra-urbano, e o 'menos' do trânsito (demasiado) lento e consequentemente infra-urbano. Um trânsito que, indiferente, se processa à revelia de uma certa etiqueta citadina, e se agrupa e aplica por aposição, anterior ou citerior, de uma próstese (o desnivelamento, a barreira, a vedação, a drenagem, a terraplanagem, o túnel, o viaduto), para que se produza a fluidez do alcatrão em pista - é toda uma engenharia membranácea cuja finalidade é a produção de uma liquidez interna à rede, à custa de desnivelamentos, desfasamentos, cessações e evitações virados para o exterior. Nos limites desta malha, na rede de auto-estradas e vias reservadas internas ao conglomerado urbano-suburbano, cria-se, como moldagem mais vincada, um tecido de interdição a tudo o que não seja a expressão mais cabal da auto-propulsão; proibindo-se todas as formas e todos os usos que não se rejam pela elevação deste padrão a um ponto que exclui uma larga fatia dos próprios dispositivos auto-propulsores: a auto-estrada, mais do que uma conduta e um espaço da liquidez, é um lugar de interdição e divisão próximo do autocrático; na supressão sem restrições de tudo aquilo que não expressa suficientemente este axioma e na criação de uma linha divisória permanente e virtualmente intransponível (ou só transponível em pontos prefixos). O paradigma automotivo é, aliás e por natureza, contrário à urbanidade: não é por acaso que a mesma grelha que permite esta fluidez se constrói como um espaço de controlo à volta ou em rompimento da cidade, mesmo quando a cidade terá sido, em grande parte, feita pelo automóvel e sem este não possa, no seu estado presente, funcionar. É importante notar, também, que estes grandes ‘sulcos’ suburbanos (as auto-estradas, as vias de cintura, os nós), que estendem (ou distendem) as artérias internas que esquartejam a cidade são, eles próprios, maioritariamente, um produto decidido e encomendado a partir desta, nos órgãos estatais citadinos cuja modalidade é faseada entre a urbe e o “território nacional”, refutando, muitas vezes, os interesses dos espaços suburbanos entre uma e o outro. []

É toda uma rede de moldagens profundas (e de espaços sobre estas modulados) que se cria, cujos padrões são os do descompasso, do deslize, da dessintonia e, principalmente, do desnivelamento e renivelamento, e da circunscrição. Há, certamente, um auto-tropismo na procura do automóvel e do seu serviço, no engrossamento das vias que depois se vão enchendo e entupindo, levando ao seu reespessamento cíclico a ponto de, muitas vezes, se perder o espaço envolvente: vide as grandes artérias da cidade de Lisboa transmudadas pelo carro. []

Apenas cerca de meio milhão vive dentro dos limites concelhios, mas um terço da população de Portugal continental reside agora numa vasta mancha urbana, suburbana e semi-rural que se expande para norte e sul do rio, com Lisboa e a região do Vale do Tejo recentemente excedendo os 3.6 milhões.

A construção, e o erigir relativamente anárquico (e frequentemente de baixa qualidade) de aglomerados de rendimento, garantem que este processo seja acompanhado por um número crescente de habitações novas, frequentemente ordenadas em cachos, ou malhas, de prédios, ao longo e à volta das artérias que interligam cidade e subúrbios — a qualidade do que se constrói é geralmente parca, mas não há escassez de casas.

Se o primeiro e mais simples gesto arquitectural (no mais lato sentido) for o erigir de um muro ou de uma parede, ou o brocar de um espaço, este acto ‘primordial’ de seccionamento ou partição acarreta já, também, a própria divisão ou repartição de quem o ocupa entre um local e o outro — a esquerda e a direita, o norte e o sul, o dentro e o fora, o sobre e o sob. É um lugar-comum que a primeira manifestação da arquitectura (no sentido estrito e lato da construção acima do solo ou da extracção de um volume abaixo) é o particionamento do espaço; é menos comum a antevisão deste particionamento como o ponto aglutinador de uma disjunção social. Ou seja, não há arquitectura (seja a dos arquitectos oficializados ou outra) que não produza ou materialize um movimento disjuntivo, ainda que possa querer ser maioritária ou exclusivamente conjuntiva — da mesma forma que nunca se produz um espaço arquitectónico, por mais simples que seja, sem este movimento sulcador. E é nesta ‘montagem’ entre particionamento e permanência, entre o erigir ou o ravinar e a persistência destes, que se vectoriza uma divisão que escorrerá no tempo. Se o mais conjuntivo dos gestos arquitecturais, expresso na ideia da criação ou da produção de um espaço que não existiria de outro modo, pressupuser sempre um seccionamento ou estriamento (da mesma forma que não haveriam espaços, mas tão somente O Espaço, sem seccionamentos; ou tempos, ou durações, sem a segmentação do Tempo, no seu fechamento e na sua reabertura), então o Rendimento será, maioritariamente, e pela forma como se dobra na própria dinâmica do capitalismo, uma expressão importante dessa outra vocação disjuntiva.

Arriscaríamos que o Rendimento, como ‘arquitectura proletária’ (que se faz para o proletariado e com este se ocupa)**, é tendencialmente disjuntivo. Não só porque produz uma divisão ao longo das suas ‘muralhas invertidas’ (no sentido de um circundamento mais voltado para o resguardo de quem se exceptua do que de quem se inclui) entre uma ocupação e uma função interiores, e uma série de actividades exteriores; como também porque desloca no espaço e no tempo, agrega e condensa. O Rendimento transcreve o modus operandi do capitalismo para uma cadeia de modos duais que replicam a divisão de classes; a divisão do trabalho; a divisão social-urbana; a divisão geográfica; e a divisão entre produção, lazer e consumo.

Tende, obviamente, para a aglutinação de uma só classe e, quanto mais não seja por inércia, para o desinteresse das outras — ainda que na primeira possamos agrupar a imigração económica, o “lumpemproletariado”, o campesinato deslocado e outros. Propende para a divisão de classes ao agrupar e aglutinar um certo “mercado” e, consequentemente, ao afastar os outros, produzindo uma separação entre valores de uso e valores de troca, cujo círculo se fecha na aquisição para arrendamento e na ascensão económica daqueles que investem, bem como daqueles que saem como investidores (do valor de troca ao valor de uso e do valor de uso ao valor de troca). []

Inclina-se para a separação geográfica na deslocação, concentração e aglomeração conducente ao dormitório, ao satélite suburbano; e à circunscrição deste pelo sobejo do campo, mas, acima de tudo, pelo desnivelamento produzido pela estrada que o ‘religa' à cidade e aos outros subúrbios.

Inclina-se para uma compartimentação marcada da vida doméstica, do lazer, do consumo, e da produção e do trabalho; normalmente produzindo ‘territórios’ com funções específicas e um círculo de deslocações obrigatórias entre estes: de casa, no subúrbio, para o trabalho terciário ou outro na cidade (ou industrial numa ‘zona’ qualquer), e de volta para casa; do trabalho ou de casa para o hipermercado na periferia da cidade ou do subúrbio; de casa para o lazer fora do dormitório; do dormitório para o consumo prontificado pelo complexo comercial nos limites deste ou da cidade; etcétera.

Acostados ao Rendimento, a falta de planeamento, e os sistemas regulatórios ausentes ou que não se compelem (ou que se implementam de forma macia), levam ao despontar dos burgos informais e de auto-construção que hoje salpicam qualquer recanto da Grande Lisboa.

É este o pulso vital do modo e do conglomerado suburbanos: as municipalidades semi-rurais e os ‘dormitórios’ (os dois frequentemente coalescendo); a mistura do novo e do velho; a supressão da ruralidade nos subúrbios mais cerrados, mas também a sua ressurgência nas hortas que ponteiam cada terreno vago; os stands, restaurantes e negócios à beira da estrada; a relativa ausência de consolidação e de espaços públicos, mas também a persistência dos vastos campos que enquadram os aglomerados mais densos; os espaços irresolutos; as casas ao estilo de cada um; os amontoados high-tech; os hipermercados, Ikeas e centros comerciais; a sofisticação que se encontra onde menos se espera; a delapidação da propriedade rural; as (pequenas) economias e industrias da obsolescência e do lixo; as comunidades que, assentando-se, tomam matérias de morada nas suas próprias mãos; os centros municipais que se consolidam e o crescente orgulho cívico que este ‘firmar’ produz; as auto-estradas, os viadutos, as intersecções e as rotundas; o rejuvenescer e o reinventar de alguns destes espaços e lugares; as comunidades muradas e os condomínios; o ubíquo carro, mas também os intermitentes transportes públicos; os prédios recentes arranjados em fileiras ou blocos, mas raramente em quarteirões de habitação e comércio; a divisão social que acompanha o avolumar dos subúrbios e a clivagem entre o centro e a periferia, mas também as muitas modalidades suburbanas que vão do ‘paraíso murado’ ao burgo informal, do amontoado de caixotes para rendimento (onde se empilham fracções e famílias) à centralidade do complexo comercial, do baldio à conciliação da industrias vitais que na cidade não cabem; a moldagem e a modulação do betão armado e do alcatrão das grandes obras; a densidão dos prédios que se encavalitam; os espaços rizomáticos; uma certa arrepsia ou hibridação; o desnivelamento como grande paradigma de supressão e colmatagem; a densidade como forma suburbana ajustada aos rendimentos baixos; toda uma industria do abastecimento e do serviço à cidade terciária.

É uma amálgama complexa, que poderá parecer, em turnos, cerrada ou desordenada (muitas vezes arregimentada), e frequentemente abatida ou prostrada. Mas é, também, germinal e, em muitos lugares, a outra face de um estado há muito semi-desligado da provisão de habitação; e do planeamento, da governação e da regulação adequados dos novos aglomerados populacionais que por toda a Grande Lisboa inevitavelmente cresceram. É, em adição ou subtração a tudo isto, um encadeamento de lugares onde, aqui e ali, desponta o surrealismo próprio das vacilações topológicas e dos combates entre moldagens e modalidades díspares. É, como tal, o lugar próprio a certos modos de vida (muitas vezes em oposição à cidade) e um local único onde certas vidas se podem fazer: a de uma certa forma de recolecção e reciclagem, ou a de certos pequenos negócios carecidos de espaço e da berma da estrada. É, finalmente, um laboratório vivo de divícia e de escassez, de divisão social, de concentração para um lado e de dispersão para o outro, de grandes sulcos e de pequenas coisas que se criam ou fazem nos espaços intermédios e nos intervalos entre aqueles, de guetização, de uma normatividade diferente da da cidade, e de uma alteridade interna (de modalidade para modalidade) e em relação à urbe.

Combina quantidades similares de capitulação e riposta às normas da especulação imobiliária. É frequentemente rompida pelo alto-capitalismo, pela divisão do trabalho e do dinheiro, e pela posse da terra. É, também, sobre-moldada, vincada e demarcada pela estrada e pelo carro. Transborda com uma profusão de empreendedorismos e oportunismos individuais, colectivos e corporativos. Existe como um ‘lugar’ multidimensional e polifacetado; mas também como uma expressão da presença, carência ou incumbência do Estado; e como uma manifestação de ‘liberdades’ que se riscam e arriscam, forçam e ajustam.

Se uma primeira ‘imagem’ deste multímodo suburbano nos sobrevém, esta será a de uma espécie de tensor em confronto (a distender para fora e para dentro), mas numa relação vital de inter-dependência, com o centro citadino. Mas internamente, também, a de uma rede de tensores que puxam, alargam e apertam em direcções díspares, criando ‘eventos’, muitas vezes conciliáveis apenas na criação de novas tensões (estriamentos), ou através de uma ‘sedimentação’ (mole) ou de uma colmatagem (dura): ocorre-nos a intervenção dos poderes, local e executivo, como exemplo de ambas; na consolidação muitas vezes trazida aos burgos informais, mas também na mão firme da expropriação e da demolição. Se a urbe nos aparece estriada, diríamos que este estriamento é menos marcado, menos sulcado, do que os grandes estriamentos do subúrbio ou da suburbanidade. []

E se uma segunda imagem, entrefechando os olhos, nos aparece, essa outra será a de uma cadeia de frequências (polífona e dissonante, mas distinta da urbana), que, adensando, envolve a cidade e por ela entra, onde esta se terá esquecido de emitir um som próprio ou onde o som que emitia a outros, quiçá mais decibélicos, se possa ter aberto, ou por estes tenha sido suprimido. Aqui, poderíamos falar de formas que, existindo já no seio da cidade, se prestam à suburbanidade, e da maneira como certos modos suburbanos importam, transformam e (re)exportam tipologias e conceitos metamorfoseados. Seria necessária toda uma arqueologia dos modos citadinos (que já incluiriam expressões de suburbanidade ou uma potencialidade suburbana) para apanharmos os fios condutores a estes processos e deslindarmos este novelo. Como exemplo padrão de uma certa apropriação, metamorfose e revenda, citaríamos o centro comercial***; cujas origens (suburbanas) se prendem com a recriação da rua de comércio ou da arcada (urbanas) num espaço privado, fechado e controlado que, por sua vez, hoje se pespega à cidade, sobrepondo-se a essa mesma rua de comércio ou aos resquícios da arcada, e com a primeira competindo, numa tendência que acompanha a da privatização dos espaços públicos, na ‘ágorização’ dos privados em substituição àqueles.

Caber-nos-ia ressalvar e elucidar esta distinção entre urbe e subúrbio, e este instrumento dicotómico com o qual operamos sobre o conglomerado, de duas formas. Primeiro, através da verificação dos vários elementos administrativos, históricos e geográficos que levam, de facto, à demarcação de um anel suburbano envolvente à cidade, e a uma departamentalização urbe-subúrbio com coordenadas definidas e uma normatividade específica. E em segundo lugar, através da coalescência de uma série de modos, que consideramos suburbanos, por nesta zona demarcada que circunda a cidade predominarem, e por se constituírem numa certa oposição ao centro, mas que não padecem de exclusividade (tal como certas expressões da urbanidade poderão não ser exclusivas à cidade). Tratar-se-ia de aceitar uma demarcação relativamente rígida e pré-existente, que divide cidade e subúrbios (ou satélites), e de a esta sobrepor uma modalidade suburbana que complicaria e confundiria esta linha divisória mais concreta e nos daria um ‘evento’, o da suburbanidade, em crescimento para fora e dentro, mas também em transformação (ao ponto de, algumas vezes, se ‘urbanizar’). Ou seja, ao espaço adicionaríamos o tempo. []

 

    * Bem sabemos da inelutabilidade do tempo e da direcção do seu escorrimento, mas um curso da história único e prefixo só o será em aparência, pela lente da retrospecção e da reconfirmação, e visto sem nódulos. Ainda assim, parece-nos que este movimento da ruralidade para a suburbanidade, que em muitos momentos se poderia ter inflectido e daí seguir um rumo diferente, é, não só, filho de uma ‘conjuntura’ nacional que o atravessa e, de certo modo, ultrapassa, como, também, prole de uma ‘tendência’ internacional que, em Portugal, se verte até ao litoral e se congrega nas cinturas dos seus maiores atractores (Lisboa e Porto). Por um lado, há as conjunturas da descolonização e da ‘litoralização’. Por outro, uma tendência internacional para a suburbanidade, que expressa transformações nos modos de produção capitalistas, e a ‘percepção’ e procura do subúrbio como sustentáculo da expansão do capital no pós-guerra (e à qual Portugal, por mais periférico e pré-industrial que seja, se submete; até porque a construção bem serve uma industrialização relativamente serôdia e incomplexa).

    ** Entendemos o Rendimento, aqui, não tanto só como a produção e o encavalitar de ‘caixas’ residenciais de baixo custo para exploração comercial através do arrendamento (o “rendimento”), como também a sua produção para a compra directa de quem as ocupa. Se a chamada construção para rendimento terá uma origem urbana e para arrendamento que, em muito, antecede a grande expansão suburbana do pós-guerra, faríamos aqui uma paralaxe e atribuiríamos ao Rendimento com o qual aqui nos ocupamos um carácter misto (compra e compra para arrendamento), maioritariamente suburbano e cimentado a partir dos anos 50 — o famoso J. Pimenta, ‘zonas’ suburbanas de grande densidade como a Reboleira ou o Casal de São Brás, satélites como Santo António dos Cavaleiros. Entenderíamos, também, este Rendimento como uma tipologia que diverge do rendimento que a antecede, ao produzir círculos, circunscrições ou satélites em espaços predominantemente vagos, de baixa densidade ou ainda rurais, em oposição ao preenchimento da cidade que a precede. Se é verdade que no limiar deste Rendimento o poderíamos confundir com algum do modernismo mais austero que se planeou para alguns dos bairros que delimitam o Concelho, logo o deslindaríamos daquele, como uma arquitectura maioritariamente de engenheiros, empreiteiros e mestres de obra (muito associada ao chamado pato-bravismo), concentracionária e de densidade — em oposição ao ‘modernismo social’ que preenche faixas de bairros como os Olivais, e que sai dos esquissos dos arquitectos regido por paradigmas como a Carta de Atenas e pela vontade de conciliar habitação, serviços, lazer e espaços verdes. É verdade que nem o Rendimento, nem o modernismo serão sempre, necessária e respectivamente, guarantidores de fracasso e de sucesso. As realidades de ambos apresentar-se-iam polifacetadas, construindo-se, por vezes, um relativo triunfo no Rendimento, assim como um certo fracasso no modernismo. []

    *** Falamos aqui da idade adulta de um ‘organismo’ cuja maioridade se poderia balizar nos anos 50, pela mão de Victor Gruen, no complexo comercial suburbano fechado e aclimatizado.